Sentir como uma Fraude!

Updated: Jan 8

Apesar de não conseguir precisar a hora exata, lembro-me daquele momento como se fosse hoje.


O sol entrava pela janela, estava sentada na minha secretária, onde durante 9 meses trabalhava num estágio não remunerado, apenas com subsídio de deslocação e almoço. Recusava-me, depois de anos a estudar e ter terminado a faculdade, voltar para casa dos meus pais e ficar sentada no sofá a enviar currículos. A simples ideia de acordar e não ter um propósito para aquele dia dava-me uma aperto no estômago gigante. Por isso, mesmo contra a vontade dos meus pais, durante o tempo que enviava currículos iria trabalhar mesmo que num estágio não remunerado.


Aquele dia de trabalho tinha uma surpresa reservada para mim. Recebo uma mensagem no telemóvel de uma colega a dizer "Saíram as colocações. Eu entrei! Vai ao email" (podem não ter sido mesmo estas as palavras, mas foram estas palavras que ficaram na minha mente).

Senti o meu coração a mil, as minhas mãos tremiam e suavam, a respiração tornou-se rápida. Abri o meu email. Estes micro segundo pareciam uma eternidade...


Vi apenas o assunto do email. Logo no assunto eu sabia que tinha sido colocada.


O nervosismo e a ansiedade deram lugar ao entusiasmo! Não abri o email e peguei no telemóvel.

A primeira pessoa que liguei foi à minha irmã. Ela tinha-me ajudado a fazer a candidatura, tinha de ser a primeira a saber.

Só conseguia dizer: "Eu entrei! Eu entrei! Vou trabalhar para a Câmara Municipal!"

A minha irmã perguntou: "Onde entraste?"


A minha resposta: "Não sei!" não tinha aberto o email, por isso não sabia...


Ainda a falar com a minha irmã abri o email e lá dizia: "Foi colocada no Município do Sabugal"


O meu espanto! Não sabia onde ficava o Sabugal.


Nesse mesmo dia o responsável do local onde trabalhava há 9 meses sem remuneração, chamou-me para reunião e disse:

"Vamos abrir um estágio profissional e queremos que fiques."


Segundo espanto do dia! Não estava à espera disto...

A reunião foi logo a seguir a ver o email e falar com a minha irmã, por isso ainda não tinha tido oportunidade de partilhar a notícia. Naquele momento fiquei sem chão e ao mesmo tempo senti-me a pessoa mais sortuda no mundo. Agradeci a oportunidade e partilhei o email que tinha recebido.


Eu tinha conseguido entrar num concurso público a nível nacional, com mais de 2000 candidatos para apenas umas 30 vagas, no mesmo dia recebi uma proposta de trabalho e só conseguia pensar que tinha tido sorte.


Tinha apenas 20 anos e estava a trabalhar exatamente para o que tinha estudado, num serviço público tal como tinha desejado. No entanto, acreditava que tinha sido sorte, começava a sentir-me uma fraude e com medo que descobrissem que não era assim tão boa.


Durante aquele ano de trabalho coloquei objetivos do que queria concretizar naquela posição. Consegui concretizar esses objetivos. Aliás foi muito mais do que tinha imaginado. Sentia que tinha conseguido algo significativo, mas na minha cabeça, mais uma vez tinha sido sorte.


Pensava na minha vida e sentia que durante todos aqueles anos tinha tido sorte. Que o sucesso alcançado tinha sido obra dos acasos. Ao mesmo tempo que sentia isto, nada daquilo me preenchia com a felicidade que acreditava que iria sentir. Este foi o meu ponto de viragem. Foi quando percebi que vivia para aquilo a que chamo Checklist da Felicidade. Foi a partir deste momento que tomei a decisão de deixar de ser a passageira e passar a ser a condutora da minha vida.


Anos mais tarde percebi porque sentia o meu sucesso como sorte e o motivo de sentir medo que descobrissem que eu era uma fraude. O nome disto "Síndrome do Impostor". Segundo um artigo do The Journal of the American Medical Association o Síndrome do Impostor é definido como "um padrão de comportamento em que as pessoas (mesmo aquelas com evidências externas adequadas de sucesso) duvidam das suas habilidades e têm um medo persistente de serem expostas como uma fraude."


Apesar do síndrome do impostor não ter um diagnóstico oficial, este fenómeno tem sido estudado ao longo dos anos e estima-se que 70% das pessoas já sentiram o impostor em algum ponto das suas vidas, segundo um artigo publicado pelo Internacional Journal of Behavioral Science.


Quanto mais estudava sobre este assunto, mais consegui compreender o motivo de poucas pessoas falarem sobre o Impostor. Porque, tal como eu, tinham medo de serem descobertas e expostas.

O impostor alimenta-se da dúvida e do medo de ser descoberto como incapaz, inadequado, apesar do sucesso alcançado. Para o impostor tudo não passa de... sorte!


Este autoconhecimento relembrou-me de uma frase que um professor da faculdade dizia após entregar o exame "a sorte não é mais que uma boa preparação". Dizia isto e saia da sala de exame. Ficávamos parte do exame sozinhos, podíamos falar, consultar os manuais e tudo mais... Mas naquela cadeira o mais importante era mesmo a preparação. Percebi que não só naquela cadeira, mas também na vida, a sorte acontece com preparação.


Impostor e duas respostas típicas


O impostor pode levar a duas respostas típicas. Pode procrastinar, devido ao medo de não ser capaz de responder ao proposto ou pode preparar-se de forma exagerada, gastando mais tempo do que o necessário na tarefa.

Num caso ou no outro o impostor pode tornar-se num ciclo vicioso. Pessoas com os sentimentos do impostor aceitam que determinada tarefa será feita de forma perfeita e sentem o medo de serem descobertas como uma fraude. Quando têm sucesso, inconscientemente pensam que o sucesso foi...sorte.

É possível lidar com o Impostor e desenvolver Confiança?

A minha resposta é SIM! Aliás, ao lidares com o impostor irás estar a trabalhar também na tua confiança. E digo-te isto por experiência.


Uma das primeiras coisas que percebi é que pouquíssimas pessoas falam sobre o que estão a sentir e pensar: "quem é que pensas que és?", "vais ser descoberta", "foi apenas sorte", "isso não é sucesso"... Um dos motivos é devido ao fato de poderem vir a ser descobertas como fraude apesar das suas capacidades, competências e sucesso alcançado.

Fala sobre o Impostor


Dá voz ao impostor. Conversa com outras pessoas sobre o que estás a pensar e sentir, criando um sistema de apoio forte. Não estou com isto a dizer que tens de ir a correr falar com todas as pessoas sobre o impostor, escolhe as pessoas com quem queres conversar. Talvez fiques surpreso com a quantidade de pessoas que podem já ter experienciado os pensamentos e sentimentos do impostor. Estas conversas vão dar-te um sentido de pertença e isso irá aumentar a tua confiança.


Presta Atenção ao Impostor


São muitas as vezes que negamos os pensamentos e sentimentos, ao fazer isso apenas estamos a alimentar o Impostor. Estamos a alimentar a sua dúvida, os sentimentos de ser incapaz, inadequado e a alimentar o medo de ser exposto. Este cocktail de impostor leva a que muitos estruturem a sua vida para que não tenham de lidar com ele. Ás vezes através da procrastinação outra vezes através da preparação exagerada. Ao ignorar estão na realidade a alimentar o impostor e a manter o seu ciclo vicioso.


Quando o impostor é validado e reconhecido, quando lhe dás atenção ele perde o poder sobre ti.


Escreve sobre os teus pensamentos e sentimentos


Por outras palavras dá luz ao teu impostor. Enquanto ele se mantiver na sombra ele está a ganhar poder sobre ti. Quando colocas luz na sombra esta dissolve-se. Da mesma forma, quando reconheces o lado sombrio e dás luz ao impostor, aumenta a tua consciência e abrem novas possibilidades e percepções. Desta forma, deixas de alimentar o impostor.

Dá luz ao impostor para que a sua sombra se possa dissipar.



Apesar da Síndrome do Impostor não ser reconhecido como uma desordem psicológica reconhecida oficialmente pelo DSM (Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders) ou CID (Código Internacional de Doenças), tem sido alvo de vários estudos e pode levar a outras patologias que só poderão ser identificadas e tratadas por um profissional de saúde qualificado, o que não é o caso do coaching! Se sentires que é o teu caso procura ajuda de um profissional de saúde qualificado.


Todos nós em algum momento já duvidamos e isso é super normal. O mais importante é que a dúvida, os sentimentos de incapacidade, insegurança, não pertença, não merecer e outros, não controlem a tua vida e as tuas ações. O objetivo não é deixar de sentir os sentimentos, não é ignorar os pensamentos, o objetivo na minha perspetiva é aprender a lidar com os mesmos. Para isso acontecer, viver em maior presença é essencial não só para lidar com o impostor, mas sobretudo para construir a vida que desejas com confiança.


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